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  • João Marcelo Alves

Por uma #saúdesemdesperdício.



Um importante estudo* apresenta as causas do desperdício no sistema de saúde norte americano no ano de 2016. O gasto em saúde pública representava pouco mais de 40% dos US$ 3,1 trilhões gastos em todo os sistema de saúde e o desperdício naquele ano foi de 41% do total gasto pelo sistema privado de saúde e 31% do total gasto pelo sistema público. O dinheiro jogado fora pelo maior sistema de saúde do mundo foi estonteante: US$ 1,14 trilhões em apenas um ano.


Ao analisar as causas de todo esse desperdício, o estudo as separam em dois grandes grupos: causas clínicas e causas administrativas e operacionais. Para surpresa de muitos, as causas administrativas e operacionais superam as causas clínicas, especialmente na saúde privada. Fatores como complexidades administrativas, falhas na precificação e fraude e abuso somaram, naquele ano, mais de 65% do desperdício no sistema de saúde privado e 52% no sistema de saúde público dos EUA.


Das causas administrativas e operacionais, o fator predominante no sistema privado são as complexidades administrativas (US$ 265 bilhões, 35% do total desperdiçado), seguido por fraude e abuso (US$ 139 bilhões, 18,4% do total desperdiçado). No sistema público, o fator predominante é fraude e abuso (US$ 83 bilhões, 21,3% do total desperdiçado), seguido por falhas na precificação (US$ 73 bilhões, 18,7% do total desperdiçado).


Das causas clínicas, o sobretratamento foi o maior vilão, responsável por 18,7% do desperdício na saúde privada e 25,7% na saúde pública. As falhas na entrega do cuidado vêm em segundo lugar, representando, na saúde privada, 15% do total desperdiçado e, na saúde pública, 12%.


Trocando em miúdos, a má gestão e controle, ou a sua ausência, foram responsáveis por mais de 53% do desperdício no sistema de saúde privado e 40% do desperdício no sistema de saúde público norte americano em 2016.


E no Brasil, quanto dinheiro é jogado fora pelo sistema de saúde?

Infelizmente, não temos estudos voltados para o desperdício na saúde brasileira. Segundo dados do IBGE, 4,4% do PIB de 2019 (US$ 7,3 trilhões) foi gasto na saúde privada e 3,8% na saúde pública, ou seja, US$ 321 bilhões gastos na saúde privada e 277 bilhões na saúde pública.


Mesmo sabendo que o peso do gasto do sistema público de saúde norte americano é um pouco menor que do brasileiro (40% nos EUA contra 45% no Brasil), me arrisco a fazer algumas comparações e projeções.


Se adotarmos a mesma proporção do desperdício no sistema de saúde norte-americano, podemos projetar mais de US$ 131 bilhões são jogados fora na saúde privada e quase US$ 86 bilhões na saúde pública brasileira em 2019. Para essas projeções serem minimamente viáveis, é preciso supor que os sistema de saúde público e privado brasileiros tenham um nível próximo de eficiência dos norte-americanos, tanto eficiência clínica quanto administrativa e operacional.


Como não temos estudos de eficiência dos gastos com saúde no Brasil semelhantes ao do estudo norte americano aqui apresentado, entramos em um campo subjetivo. Mas algumas percepções, especialmente em relação às causas de desperdício administrativas e operacionais e ao sistema público de saúde, podem ser levadas em conta.


A primeira suposição é que o sistema público de saúde brasileiro é pior gerido e menos controlado que o norte americano. Essa suposição parece válida, não apenas pelo volume de recursos aplicado em gestão e compliance nos EUA, quanto pela própria forma como os recursos são geridos nos dois países.


Se adotarmos a mesma proporção das causas de desperdício na saúde pública norte americana à brasileira, fraude e abuso representaria US$ 18,3 bilhões (21,3%) do total desperdiçado na saúde pública e falhas na precificação US$ 16 bilhões (18,7%). Se a suposição acima for válida, esses números podem ser muito maiores.


Uma segunda suposição, que parece lógica, é que melhorar a gestão e o compliance de processos administrativos e operacionais na área da saúde é mais simples e rápido que reduzir falhas na entrega do cuidado e sobretratamento.


Usando a mesma proporção das duas principais causas de desperdício da saúde privada norte americana, complexidades administrativas e fraude e abuso, para a saúde privada brasileira, chegamos a um desperdício de US$ 70 bilhões ao ano. É muito dinheiro!


Por má gestão e controle ou a sua ausência, perdemos US$ 70 bilhões ao ano. Uma maior eficiência operacional deveria ser aplicada pelos hospitais privados e operadoras de saúde para um cuidado melhor e mais barato para o paciente.


A pandemia do covid-19 traz impactos profundos para a economia da saúde, onde todos os elos da cadeia terão de ser mais eficientes e eficazes na entrega do cuidado. Não há mais espaço para desperdício. Não é ético e não é sustentável jogar fora US$ 70 bilhões ao ano na saúde privada e US$ 34 (ou bem mais!) na saúde pública por má gestão e falta de controle.

O avanço de novas tecnologias na saúde, como data analytics, IoTs, automação e IA podem e devem ajudar na redução de desperdícios e aumento da eficiência operacional, trazendo agilidade, escalabilidade e o barateamento dos processos de gestão e controle, tanto na assistência quanto nas áreas de suporte.

Estamos no caminho para um “novo normal” na saúde, onde não haverá mais gordura para acomodar o corporativismo, a baixa produtividade e a má alocação de recursos humanos e financeiros.

A sustentabilidade da saúde brasileira nunca esteve tão ameaçada e o prazo para mudar já está vencido.


*Fonte: Waste categories and magnitudes based on work by Berwick DM, Hackbarth AD. Eliminating waste in US health care. JAMA. 2012;307(14):1513-6.

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